quarta-feira, 26 de novembro de 2008

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Soneto dos espectros falidos

No limiar dos verões turvos
Brotam frutos amargos das almas decadentes;
Choram juntos os espectros infelizes
Nas sombras úmidas do umbral dos desesperados.

As noites entorpecentes estouram cabeças alienadas,
O vinho cataléptico sempre volta a fazer efeito...
E o serpentear das ruas que parem becos
Escondem o cheiro do vício dissolvido em orgasmos.

O silêncio veste as ruas e o assombro em vão
Da vida comum se difere das sombras dantescas
Que compõe a ópera das almas mutiladas.

Assim é o mundo breve dos desprezados,
O paraíso funesto de uma estirpe alucinada
Que plantam idéias murchas no canteiro de escolhas mortas.

Crepusculo cego

Tenho espasmos de um barco mudo
Ancorado em devaneios cristalizados,
Sinto o vento verde que me infla os pulmões,
Mas não consegue movimentar minhas velas inexistentes.

Nos vermelhidões dos crepusculos cegos
Permaneço inerte sem sentido algum...
Sem respostas para o incansável sol
Que encontra na noite refugio para tornar a brilhar.

Quisera ter eu a vitálidade do sol
E descobrir nas noites turvas do meu espírito
Um brilho revigorador de prazeres...

Mas o que resta no barco surdo do meu ser
São ancoras para o sentido da vida...
É perceber na beleza murcha das flores a dor de perecer.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Curtas

Da amizade...

Das inumeras chagas que carregamos,
A pior gangrena a ser limpa
É sempre a que foi
Provocada por um amigo...

Da velhice...

É observando a arquitetura das rugas de cada velho
Que notamos a gravidade de sua batalha contra o tempo,
É quando as rugas não se diferem de cicatrizes
Nem os idosos de gurreiros.

Da morte...

Na carne vale prazer,
No espírito leveza,
Beleza;
Na vida em si o que nos resta
É escolher como morremos.

(...)

FOME

Quando o pão nos falta
A alma se alimenta de vergonha,
Não é tanto a fome que nos degrada,
Mas sim os olhos famintos dos saciados
Que nos descarnam como vermes...
Não era pra ser, mas somos muito igualados
À aquilo que comemos...


(sanza)

TERRENO BALDIO

Da doce semente em que outrora padeceu outros sabores no corpo tímido,
porém atrevido, desvendaram-se como uma transição de espírito...

Do salgado sorriso de raiva que às vezes balbuciando injurias encontra o cômico no ápice da cólera...

O amargo vem de inúmeras desilusões e perdas...

Esse gosto suculento de fel, incentivado também pelas traições,
o bom que ficou pra trás, os devaneios mais concupiscentes...

Por alguém que vomitará no dia seguinte...

Dos vários momentos sem sabor subliminares instantes esporádicos,
um beijo na boca daquela que se despede...

Ou uma possível amizade que acaba na primeira estrofe...

O azedo vem do excesso de confiança, causando ânsia naquele que prova...

Sim! Não há "gosto" que a defina...
A complexa metamorfose de sabores vem dos vários solos em que se plantou.

(sanza)